Já passava de 2 horas da manhã, era a quarta vez que eu acordava. À minha esquerda estava D.evil, meu marido, agarrado à uma garrafa de Vodka com a baba escorrendo pelo canto da boca, mergulhado em um sono profundo que me deixava irritado. Suspirei, olhando para o teto, refletindo sobre a situação , sobre minha vida, sobre meus sentimentos. Percebi que estava exausto, cansado da mesma rotina , daquele relacionamento estranho, no qual não me sentia respeitado e feliz. Sentei na cama, olhei para D.evil por muitos minutos, não sabia exatamente quantos, mas cheguei à conclusão de que talvez não quisesse mais seguir minha vida sendo companheiro dele. Estávamos há 6 meses juntos, 6 meses sem progresso. O dia estava amanhecendo, e minha decisão estava formada e tomada. Não queria mais. Não havia ninguém por quem eu estivesse apaixonado, não havia outra pessoa. Apenas, esgotei. Por mais que estivesse decidido, faltava-me coragem. Sabia que há algum tempo o casamento ia mal, mas mesmo assim eu insistia," empurrando com a barriga", levando, para ver até onde conseguiria ir.
Talvez eu mudasse, talvez ele mudasse, sempre existia em mim uma esperança para reverter aquela situação...Mas no fundo, sabia que uma hora, acabaria.
Depois do banho , tomei o sagrado café, na tentativa de me sentir revigorado e esclarecer meus pensamentos. Encontrava-me parado, encostado no balcão do cozinha com uma xícara na mão, até que senti um abraço pelas costas e um hálito quente, com cheiro de bebida , encostando em minha face:
-- Hm, que delícia você está, todo sedutor com esta roupa de quem vai se exercitar!
D.evil deslizava as mãos por meu corpo, segurando a barra de minha camiseta como se quisesse erguê-la e tirá-la. Em poucos instantes as mãos dele estavam acariciando entre as minhas coxas,subindo ao puxar o elástico da calça esportiva , buscando encontrar a minha roupa íntima.
-- Será que você não está com vontade de se exercitar comigo agora ? É melhor do que sair correndo por aí feito um idiota. Tenho certeza que sua corridinha não te fará gozar...

O suor dele, o cheiro, a maneira como se comportava, deixava-me fora de mim, no pior dos sentidos. A irritação manisfestava-se em latejos na minha testa. Mesmo com aquela abordagem, que em outros tempos teria terminado em sexo ali mesmo no chão da cozinha, não consegui manifestar nenhum vestígio de excitação. Apenas segurei o pulso dele, com calma, virei-me, dando um sorriso forçado. Olhei em seus olhos negros e um tanto avermelhados, evidenciando que ainda existiam resquícios de bebida em seu organismo. Ou seria o cigarro?
Não sei, não sabia de mais nada. E talvez nem me interessasse mais. Continuei o teatro de sorrir como se tudo estivesse bem, toquei com gentilezas a face dele e me esquivei da maneira com a qual ele havia me encurralado. Fingi buscar um pouco de água na geladeira enquanto conversava.
-- D.evil, eu preciso fazer isso. Desculpe, eu combinei de correr com um amigo, não posso me atrasar. Você parece cansado...Por que não toma um banho, um café forte, e descansa? Por favor, não beba hoje e nem fume...Sua aparência pede cuidados.
Nitidamente, D.evil sentiu-se rejeitado. olhou-me com uma expressão revoltada, pegou minha xícara sobre o balcão e jogou-a no chão, a quebrando.
-- VAI! VAI! Vai lá correr com um FILHO DA PUTA QUALQUER! Você não é homem de verdade! Seu desgraçado!
Depois das ofensas, ele subiu as escadas e se trancou no quarto. Aquilo quase sempre acontecia, por isso minha reação foi de extrema tranquilidade. Controlei-me, e saí de casa. Não encontraria nenhum amigo, apenas desejava correr sozinho, esticar as pernas, encontrar coragem para concretizar minhas decisões. Tinha medo de machucar as pessoas, tinha esperança na mudança, depositava minha fé que um dia, tudo seria diferente...Mas, os fatos estavam me mostrando o contrário. Estava mais do que claro, que a tendência era piorar.
No meio do percurso, parei em uma loja de conveniências. Deparei-me com uma situação inimaginável. Era ela, ela e o novo namorado. Ayumi, sempre sorrindo, sempre agitada, sempre inquieta, e sempre acompanhada de um cara diferente. Perguntei-me em pensamentos como ela conseguia. A meu ver, era uma pessoa emocionalmente instável. Qual seria o problema? Como sempre, Ayumi ao me ver, agia tratando-me com escândalos. Sim, eu era mesmo um amigo "gay", que de vez em quando ela dava em cima. Mas será que ela dava em cima mesmo de mim ou era apenas impressão minha? Eu a levava na brincadeira, afinal ela sabia que eu era casado, que gostava de homens, que dificilmente me envolveria com uma mulher..Apesar de achá-la linda e contagiante, aquilo estava apenas em meus pensamentos, ela sequer desconfiaria. Ayumi me abraçou, e eu a apertei, sorrindo. O rapaz que a acompanhava estendeu a mão para mim, se apresentando.
--- Olá! Sou SHUN OGURI, marido da Ayumi! Muito prazer! Você é o MAD não é? Ela fala de você de vez em quando...hahahaha!

Os pensamentos infestados de perguntas surgiram : "Hã? Fala de mim? Como assim que ela "fala" de mim? O que ela falaria? Que eu sou o amigo homossexual comprometido que ela alisa com intenções carnais?.....Hã? CASADA? Como assim, CASADA?". Depois de questionar tudo aquilo silenciosamente para mim, pude finalmente expressar algo de forma oral.
-- MARIDO? Como assim? Quando vocês se casaram? MARIDO?
Perguntei para ambos, logicamente estava chocado. Ayumi era muito versátil. O que ela tinha para ter tantos homens rastejando aos pés dela? Por que tantos relacionamentos rápidos e intensos?Ayumi então se manifestou, sorrindo, dando-me tapinhas.
-- Não fica asssimmmm MAD! Sei que você queria ser meu marido, mas ...você não curte a fruta , não é? HAHAHAAHAHAHAHAHAHAAHAHA!
Ayumi e o marido gargalharam na minha cara, e eu , sem muita escolha, também ri da situação. Nos despedimos. Depois daquele encontro retornei para casa, busquei as chaves do carro em cima da mesa e tornei a sair. Fiz o possível para não encontrar D.evil por algumas horas. No celular já haviam 22 chamadas dele, das quais atendi apenas a última.
-- Olá D.evil...Está melhor?
D.evil estava com a voz alterada, no fundo existia um som alto, um barulho que me impossibilitava de escutá-lo direito.
-- AHHHH! ESTOU SIM! Já que você não quis fazer festinha comigo, eu chamei uns amigos machos de verdade para brincar! Tá escutando o barulho da minha felicidade????
Talvez aquilo fosse um blefe. Talvez ele apenas estivesse irritado pelo fato de eu não o ter atendido por horas.
--- Já são 7 da noite! Cadê você aqui hein??? Que corrida DEMORADA DO CARALHO FOI ESSA? Vem para casa, AGORA, está me ouvindo? AGORA....ou vai se arrepender. Se você não chegar aqui em meia hora eu me mato! Tá me escutando seu desgraçado???
A ameaça de D.evil me deixou preocupado. Por mais que ele estivesse alterado, ele nunca, jamais, havia ameaçado tirar a própria vida. Então, mesmo que fosse um blefe, uma chantagem emocional barata, eu cedi. Consenti no telefone, confirmei que já estava chegando. Um pressentimento negativo consumia meu coração.
-- Certo...C-certo...Não diga besteiras! Eu estou chegando! Só queria ficar sozinho hoje!....Mas, estou chegando! Okay?...Me espera...
Estava retornando para casa, mas nem imaginava a "surpresa" que haviam preparado para mim.
~~ Continua...
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